O esquecimento do sentir

Sango Agostinho, padre da Igreja no século IV, em suas Confissões, diz que quando a música sensibiliza mais do que as letras que se cantam, há, então, pecado. Isto porque a Verdade (que, no caso dele, é Deus) está nas palavras e no significado que elas podem produzir. Assim, ele recomenda seguir a prática de Atanásio, bispo de Alexandria, que ordenava aos seus “recitar os salmos com tão diminuta inflexão e voz que mais parecia um leitor do que um cantor”. O ruído – o som – atrapalha a silenciosa leitura que busca decifrar a verdade. A música deve ser ouvida como lida, isto é, as letras são o que importa, nada mais, nem a voz, nem a dança. Esta recusa e separação, que bane e esquece a voz e, sobretudo, a dança, tem início não com Santo Agostinho, mas com o fato de o cristianismo ser a religião oficial do Império Romano: a recusa por tudo o que estava impregnado de grego. A música cristã, que estava nas catacumbas e nos judeus convertidos, não chegou às igrejas. Em dado momento a dança foi proibida nos cultos cristãos, juntamente dos acompanhamentos musicais (para, depois, ter o órgão como o único instrumento digno da liturgia). Diante desse percurso que os padres da igreja levaram a música cristã, Agostinho só poderia considerar a música, e tudo que fosse canto e dança, um pecado. O desprendimento das raízes ritualísticas e uma crescente influência da filosofia grega levaram o cristianismo a se afogar no nascimento da teologia. Um rito cheio de vigor como cantar, dançar e celebrar um salmo perde sua força, e, o salmo, que antes era palavra viva e viva em um tal espaço, passa a ser somente objeto de interpretação filosófica. O próprio cristianismo, graças à influência da filosofia grega, vê o rito e o sagrado como profanos. Toda festa é banida com a música e a dança. E resta, pois, um texto, cinza e sem força, que precisa ser decifrado. O nascimento de um monotonoteísmo. O Ocidente é fruto disto, e já não sabe mais, apenas muito raramente, apreciar todo sentir de um rito. Antepusemos a experiência filosófica-teológica (a arte de racionalizar e perguntar pelos porquês) à experiência poética. Para nós, um poema tem de dizer algo, e se apenas dizer algo, ótimo. Lidamos com um poema como lidamos com uma obra filosófica, fazendo exegese, através de hermenêutica – tanto na “criação” quanto na “apreciação” . O sentir, próprio do poético, não importa, ou importa pouco, bem menos. Para nós, é inconcebível um poema (mesmo uma canção) ter algo a ver com a dança, com os gestos, com olhares. Um poema é apenas um texto que deve somente ser lido e decifrado – busca-se  apenas a verdade: se uma verdade ou muitas, infinitas, tanto faz, ainda se quer a verdade, as verdades atrás de todo gesto poético, e só isso. Pois é o grande e monumental pecado ocidental emocionar-se mais com a música, com a dança, com o espaço de um rito do que preocupar-se com as letras. Digo, porém, algo diverso: o crime é outro – é a divisão, a separação do inseparável. Um tudo tornando-se em vários cacos. A quase completa perdição dos próprios ritos. Ponte para a miséria: tão longe ainda do mundo – embora jamais dele tenhamos saído. Com a filosofia (a ciência, a teologia…) esquecemos como sentir o mundo.

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