Os mistérios da política

Para Aristóteles o conceito de cidadão pode ser definido como “aquele que detém algum poder”. A questão do que é poder, contudo, não é pensada. E a grande pergunta política para ele é “qual é a melhor forma de administração?”. Em resumo, para Aristóteles a política é vista do seguinte esquema: é a ciência que definirá qual o melhor sistema de administrar a Cidade, garantindo aos cidadãos, aqueles que detém algum poder, seus direitos enquanto cidadãos. Lendo sua obra, Política, percebe-se que essa ideia é diretamente derivada da administração doméstica: a Cidade, o Estado, é como uma grande casa. A escolha do grande administrador, isto é, do pater familias – o pai de família – é, no fundo, uma questão de opinião, e isso o próprio Aristóteles deixa claro. Pergunta-se pelo que é melhor. É uma questão de juízo, que ultrapassa as certezas científicas. No fundo, a pergunta é: qual é a melhor forma de administração para mim? Esse “para mim” é importante, porque mesmo na coletividade, ou nos coletivos – tão tantos hoje -, o que vigora e se sobressai é o próprio interesse daquele que emite a opinião. O coletivo não possui o interesse impessoal ou objetivo, mas tão pessoal e subjetivo quanto o do individual. A política projetada no horizonte da administração não é política, mas administração. E administração é: escolher aquele que administrará melhor a casa segundo os critérios daquele que escolhe. A política permanece impensada. Mesmo na questão, tão atual e hordierna, de empoderamento, isto é, dar poder, a política ainda não é tocada, pois a definição de cidadão ainda é a aristotélica, como a daquele que possui algum poder – dentro da Cidade. O que é poder não se questiona, toma como dada a questão, e crê-se que poder é escolher e estar no âmbito dos pactos, ter direitos. É que todo empoderamento é apenas empurrar para que se seja cidadão, isto é, para que se participe dos pactos e possa escolher a administração. O que não se pensa, porém, é que “cidadão”, mais do que mero título, é o ideal de homem e mulher. Todo cidadão é ideal, na medida em que é o humano castrado, é o humano oprimido para ser segundo cartilhas. As escolhas dos cidadãos já são sempre de antemão definidas. Paradoxo? Não, dinâmica do sistema. E nisso tudo ainda não se toca, nem se aproxima, da política. A verdadeira política, como tudo aquilo que é denso e sempre inaugural, liberta. O que nós, realizadores da pseudo política aristotélica, fazemos é nos projetarmos, sem consciência e sem decisão, para o molde já dado e definido pelo sistema vigente. Resta, sempre, pensar e meditar o que é política e liberdade. Fica a citação de duas passagens de dois dos maiores pensadores políticos dos nossos tempos, primeiro uma de Jorge Luis Borges, o escritor argentino, e depois a de Martin Heidegger, filósofo alemão:

“Um sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a qualquer um deles.”

” A essência da liberdade não pertence originariamente à vontade e nem tampouco se reduz à causalidade do querer humano”

 

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