De como a revolução se tornou reação

No fim da Modernidade, em um golpe que se inicia com Nietzsche, o Ocidente se vê no meio de uma revolução que visa à moralidade. Nietzsche escava fundo as bases da moralidade, realiza sua genealogia – nos aponta o caminho para entender e solapar a nossa moral ocidental-moderna, e realizar a verdadeira revolução, que consistiria em entregar-se a um modo de ser-socialmente diferente, abrir caminho para o originário, aceitar a diferença e livrar-se da ditadura da homogeneidade que a moral vigente nos impõe. Esse ataque consistiria em, primeiramente, mirar no baluarte da Modernidade, a Revolução Francesa, e mostrar que ela não só reafirma a moralidade cristã-ocidental, como também a leva às suas últimas consequências, a refina, a pole, e, ao contrário do que se prega, que ela não é uma revolução moral, tampouco de valores, tampouco de configuração de sistema, mas uma mera, e superficial, troca de roupas do corpo que é o Ocidente platônico-cristão. Nietzsche nos abriu caminho para que percebamos que a Modernidade mesma é herdeira e manutenção da nossa moral, a moral Ocidental, e que por isso ela não poderia ser a base de qualquer obra nova, de uma revolução da nossa moral. Tínhamos o caminho tão bem trilhado, Heidegger, Focault, Deleuze, Derrida e outros nos trouxeram e nos aprofundaram os caminhos de Nietzsche – as trilhas para uma verdadeira revolução são muitas e diversas. Mas parece que a força se despotencializou, o vigor se desvigorou, aquele caminho que parecia reluzente e imanente ao nosso porvir se tornou turvo e abstrato: a Modernidade se refinou mais ainda, tornou-se mais em si mesma, tornou-se Pós-Modernidade, isto é, mais Modernidade que a Modernidade, ou seja, levou a nossa moral, a moral ocidental,a uma nova configuração, deu-lhe novas roupas, novos apetrechos. A revolução se tornou tão pouco revolucionária, que o caminho aberto por Nietzsche para revolução do originário, do diferente, se tornou a revolução do novo contra o velho – porém, sem perceber, o novo e o velho são o mesmo. As críticas aos fundamentos da moral, à sua raiz, foram direcionadas às suas roupas: a revolução de hoje, ainda que útil, é uma revolução contra as roupas – luta-se para a mudança de roupas, nesse sentido, ela é uma revolução que luta pela ordem vigente, pela manutenção dos fundamentos da nossa moral, da nossa tradição. O revolucionário do qual me refiro é reacionário no sentido mais profundo do termo – ele luta para que a ordem vigente vigore, ainda que com outros trajes. Assim, dirige sua força contra o patriarcado, contra o racismo, contra o cristianismo, contra as opressões todas, e não percebe duas coisas: que essas opressões não são a causa do problema, mas a consequência direta e indireta do verdadeiro problema, a saber, a nossa moral ocidental, platônico-cristã; e que usam essa mesma moral para combater os problemas contra quais lutam. A luta é válida? Sim, claro, estou longe de querer abolir ou combater o que hoje se chama por movimento social ou esquerda revolucionária, são coisas que, à sua maneira, conseguem aliviar os problemas em nosso momento. Mas justiça seja feita, de revolucionário esses revolucionários nada têm. São menos descaradamente reacionários do que os típicos reacionários, como o homem de direita, o conservador ou o católico, mas ainda assim são tão reacionários quanto, o seus modos de agir são essencialmente reacionários, sua finalidade é reacionária, já que é determinada e delimitada pela moral vigente. A única revolução possível é a que transformaria, a que mudaria, e não modificaria, a moral… Revolucionar é ir contra seu próprio piso, é lançar-se ao abismo, abdicar-se das certezas, dos alvos, das teleologias. O revolucionário tem um desejo e uma vontade tão grandes pela transformação e um incômodo tão grande com a tradição, com o vigente, que para ele qualquer manutenção de ordem, de sistema, qualquer conservação, conservadorismo é um crime contra si próprio. Mas Nietzsche abriu o caminho, nos mostrou a direção da genealogia, da escavação, nos lembrou de olhar para os fundamentos das morais, de buscá-lo… Nietzsche no disse: Ecce revolutio – eis a revolução! E nós só demos a ele, pobre Nietzsche!, mais do mesmo, ou seja, Pós-Modernidade… mais moral, mais da nossa moral. Fomos reacionários, ainda que cada um com seu traje, à revolução que nos foi ofertada.

 

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