Alguma consideração sobre as disposições de humor

Estive percebendo que há sempre uma pressa em tipificar, em classificar, desde uma analogia entre alto e baixo, as disposições de humor. A preocupação é sempre em deixar bem definido o que está para o lado de cima, e assim associado por positivo, e o que está para o lado de baixo, vindo como o negativo. A boa definição é sempre resultado de uma ignorância crassa, ávida pela determinação da vida, e pretensiosa na previsão dos desdobramentos das disposições de humor, como que se ao já dispor da determinação de cada humor pudesse de antemão determinar o resultado do seu acontecimento. O que acontece é que a pretensa previsão sempre falha, e falha porque seus fundamentos são fracos demais: ela espera que o humor X seja do tipo “cima”, do tipo “positivo” e que por isso toda positividade dela advenha; contudo, o erro básico é esperar que o conceito do humor X gere no homem o humor X, que todas as outras disposições humanas fiquem de fora e que, isoladamente, o humor X, agindo dentro de sua sempre posterior determinação, engrandeça, “melhore”, enobreça. O apelo é sempre à evidência, por exemplo, que a ira é sempre ruim ao irado. Onde, pergunto, está a evidência dessa colocação? No fato de que a ira é ruim, e possuí-la é ruim, assim, dizem, é ruim para o irado estar irado. Resultado, a ira deve sempre ser combatida. Mas, não estaria na hora, deixando de lado a boba classificação das disposições de humores, perguntarmos pelo valor de cada humor? O quanto a ira pode ser vitalizante para a própria vida? Porque o jogo das classificações determinadas e determinantes só serve para um propósito, o de dar por dado o que nunca foi pensado. Seria, talvez, o momento de abdicar da dualidade bom e ruim, e aceitar que tudo quanto é humor, dependo da sua manifestação e do que os manifesta, terão os diferentes tipos de efeito, bons e ruins. A antevisão desses efeitos é impossível. A alegria nem sempre gerará no alegre uma vitalização da vida; a fúria pode gerar no furioso uma vitalização da vida. Por que, então, a guerra proclamada quanto ao que sempre se pressupõe ruim, sem o mínimo cuidado com o pressuposto? O quanto estamos perdendo ao negar a nós mesmos tudo o que a “negatividade”, os humores “negativos” podem nos dar? E se houvesse, e eu creio que há, nos humores “positivos” algo, também, de degradante, de desvitalizante?

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