Desvio filosófico ou 5 notas de errância ou ainda um descaminho de movimento

Nota  zero:

É uma divagação, extensa para o meio (blog) que se pretende. O caminho pode, e provavelmente o é, parecer obscuro, senão confuso. Mas, a confusão, ou então, nomeando-a diferentemente, o mistério é uma boa coisa. O que é suficientemente claro cega. Galileu é prova. O resto, o tudo que se é no mundo, com o mundo, a partir do mundo é nem totalmente claro, nem totalmente escuro. Até porque, a totalidade de luz e a totalidade de ausência de luz são, e se são!, a mesmíssima coisa: cegueira. O que quero dizer, aliás, predizer, é que não há caminho totalmente iluminado. É bom, é necessário, é essencial que nos desviemos pelo silêncio, pelo mistério, pela sombra. Não, nada de ocultismo! Aliás, só se ocultismo dizer do que é oculto, do que não é evidente — mas não ser evidente não quer dizer não ser presente, muito pelo contrário, nós só não conseguimos ver o que está na nossa frente; é preciso que se esteja presente para que a possibilidade de não visão seja possível. O ausente, o que não é presença, somos incapazes de ver e de não-ver porque não está ali se pondo como possibilidade de ser visto. Assim, a confusão, o mistério, a obscuridade que pode advir do que virá aqui é totalmente natural (é a partir da Natureza, do cosmos, do mundo). Mas, prossigamos.

1.

Pretendemos uma introdução à filosofia. Isto que tantos já fizeram tantas vezes. Sim, a tentativa de introdução se dá incessantemente porque os homens precisam — e como precisam! — filosofar! Ora, vejamos como no mundo há pessoas, criaturas, seres tão… tão… tão inertes. Inércia de vida não, porque a vida, por ser vida, já diz uma não inércia. Inércia de movimentação, de desenrolar, de caminhar. Que é, então uma introdução à filosofia? Martin Heidegger disse, e ainda diz, que introduzir é “pôr o filosofar em curso”, posto que o filosofar já está desde sempre e para sempre no homem. Então, o que aqui pretendemos, com toda a amigabilidade da pretensão, é pôr o filosofar em curso. Agora, a questão é outra: como, em que curso?

Uma história da filosofia seria, e é, desnecessária. Já bem sabemos que foi na Grécia que surge o modo de pensar nominado filosófico! Os tão mal denominados pré-socráticos! Questionadores da Natureza, do universo, do cosmos, do mundo! Depois Sócrates, Platão e Aristóteles (configuradores do curso que a filosofia tomou no seu percurso pelo Ocidente e o mundo ocidentalizado). Eis uma história da filosofia! — desnecessária, como bem apontei.

Se desnecessária, por que, então, dada? Confuso. Ou até mesmo sem fuso! A intenção era mostrar o curso filosófico. Curso diz aqui não o conjunto de aulas ministradas sob rigor acadêmico, mas o caminho, a via que se tomou a filosofia desde seu brotar grego. Então, pode-se pensar, era dessa maneira que se pretendeu colocar o filosofar em curso? Não, absolutamente não. Prometemos um desvio no título, e um desvio daremos. Mostramos o curso que tomou a filosofia, um curso que jamais poderíamos seguir, posto que nós somos nós, e não somos eles. A diferença impede a repetição. Não existe cópia ou imitação. Assim, só nos resta, e este resto é um tudo, termos de nos desviarmos do curso da filosofia.

2.

Desviar diz: sair da via; em outras palavras, tomar outro curso, fazer outro caminho. Pôr o filosofar em curso é despertar o homem para o filosofar, fazendo-o filosofar enquanto caminha. Assim, retirá-lo da inércia. Mas, que inércia? Que inércia é essa?

Um curso de filosofia de ensino médio, mas também o programa de filosofia do Ministério da Educação diz que o papel da filosofia, enquanto disciplina de um projeto educacional, é formar um cidadão capaz de refletir e criticar, um cidadão reflexivo e crítico — sendo assim menos provável que tal cidadão seja passado para trás, ou enganado, ou ludibriado, posto que agora é crítico e reflexivo e pode pensar por si mesmo, pode ver o fenômeno, ou coisa, ou fato e refletir com um olhar crítico. Esse é o plano da filosofia enquanto curso e disciplina. Agora, a pergunta: Como esse formar reflexivo-crítico é posto? Sendo imposto, é claro. Pondo o filosofar em curso, não em qualquer curso, mas no curso que a filosofia já tomou. O curso da história da filosofia — um reprodução arqueológica dos passos dos filósofos; lego filosófico: montar as pessoas, mas um montar com um fim já previsível e único. Deste modo, todo caminhar filosófico não é um caminhar. Não há na naturalidade do mundo caminhos que levem a um mesmo ponto (é bom lembrar da segunda lei de Newton, dois corpos não ocupam o mesmo espaço!). Então, um cidadão reflexivo e crítico, formado pela formatação de um curso filosófico, é um cidadão que reflete de acordo com um curso (modelo) e que crítica segundo um curso (modelo). Que temos então? Inércia. Continuar parado, estagnado,imóvel. Encena-se, de uma forma até bonita, o filosofar. Quando o curso do filosofar não é um desvio, mas uma caça ao tesouro, temos uma representação.

3.

Pôr o filosofar em curso significa pôr o pensar em plenitude de ação. Pensar sempre é diferente. Se pensar é sempre uma diferença, então fica óbvio a falcatrua que é um curso de filosofia que pretende ser um único curso. Deveríamos nos questionar sobre o filosofar. Que é, portanto, o filosofar? Platão diz que Eros (o amor, o desejo) tem algo em comum com o filósofo: é um ser do entre; não é nem ignorante, nem sábio. Entre a ignorância e a sabedoria vive e vige a filosofia: o desejo de mover-se para longe da primeira, e para perto da segunda. Filosofia é movimento. E como movimento é sempre dinâmica. Poderíamos dizer de um modo bem simplificado que a filosofia é o movimento que movimenta o homem aos seus próprios desvios. Daí a filosofia não ser nunca somente uma posse de conhecimentos. Conhecimento é sempre a pretensão de uma intrepidez. A Terra gira ao redor do Sol: eis um conhecimento. Acúmulo de conhecimento não é filosofar, muito pelo contrário, filosofar é movimento, é perda e ganho. Filosofando perde-se e ganha-se tudo: filosofar é devir. Filosofar sempre diz evolução, mas no seu sentido etimológico, o de desenrolar, ex-volutare, isto é, enrolar para fora, assim, desenrolar. Ex-volutare diz o desenrolar de um papiro. Mas, como se é sabido, sempre que desenrola um lado de um papiro, enrola-se outro. Daí, evolução ser sempre ganho e perda, portanto, desenrolar, caminhada. É o deixar para trás, mas não esquecer! O que se enrola em um papiro já se foi lido. Eis o filosofar, o movimento, o eterno movimento que o homem dá.

Então, introduzir à filosofia diz despertar o movimento que movimentará o homem enquanto homem. Como, então, se movimenta o homem?

4.

Movimentar diz sempre fazer vigorar a diferença. Muito mais do que ler os filósofos, filosofar é dialogar com o pensamento pensado pelos filósofos. Filosofar é sempre abster-se da inércia das comodidades e conhecimentos prontos e práticos, e lançar-se em um abismo, para um salto em direção ao desconhecido. Disse um filósofo certa vez que a filosofia é a eterna perseguição. Daí, questionar. Questionar e pôr em questão é sempre um movimento que gera mais movimento. Acatar respostas e boatos é firmar-se na inércia. Perseguir o ainda desconhecido, mas também perseguir o já conhecido. Pôr-se no entre em que se já está e não se sabe.

Voltamos então a uma questão já disposta: movimentar-se para onde? Para o próprio caminho. Filosofar é uma atitude de movimento, que só pode movimentar a quem filosofa. Na sabedoria da inscrição em Delfos: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo, e conhecerás o universo e os deuses”. Essa inscrição diz que o primeiro movimento do filosofar é o movimento do filosofante. E tão somente com o filosofante em movimento é que todo outro movimento é possível, a saber, o conhecimento das coisas além e aquém do que filosofa. Filosofar, então, é sempre se pôr em movimento com universo, com o mundo. E, como bem sabemos, o mundo é puro devir, no grego tò gignómenon (o que sempre está se gerando). Desse modo, filosofar é pura expressão de viver. Portanto, é sempre um desvio dos caminhos alheios. Filosofar é pôr-se no próprio caminho, no próprio curso, que é sempre um desvio dos outros cursos. Movimento único, porque todo movimento, se natural, é sempre único.

5.

Última nota, e talvez a mais importante: filosofar não é racionalizar. Filosofar é movimentar-se. Racionalização pode lidar com abstrações e falseamentos da natureza, da realidade. O filosofar jamais: ele sempre lida com a concretude da vida, é sempre o pôr-se em movimento, em movimento de vida, em movimento de própria vida. Pode-se filosofar o silencio, a morte, o amor (coisas tão concretas, coisas que tanto afetam nossa vida), mas há uma impossibilidade de se racionalizar o silêncio, a morte e o amor.

Pretendeu-se introduzir à filosofia. Na impossibilidade de ditar um desvio (pois se ditássemos seria uma via, um curso de fim já conhecido), tentamos quebrar os cursos, vias e caminhos. Não se deve ler e acatar o que dizem os filósofos, é necessário filosofar, isto é, pôr-se no movimento com o pensamento dos filósofos , em última instância, dialogar para fazer vigorar o pensamento. Movimento.

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