Divagando sobre a não-aula (ou Sobre o Afeto)

Divagações

I

1. Aula diz, dizia (embora nunca deixe de dizer, por isso diz), do pátio do palácio no qual ocorriam discussões. Era, em suma, o local no qual pessoas se reuniam para discutir.
2. Educar, se depreendido, diz “ex-ducare”, isto é, conduzir para fora a partir de dentro. Diz, também e portanto, exteriorizar-se, fazer eclodir aquilo que é próprio de si.
3. Paideia é a formação da criança. Diz a capacidade ou o ato de ter forma, isto é, de con-formar-se consigo. Formar-se é ser instruído, portanto receber ferramentas e possibilidades de possibilidades, para que um dia venha a configurar-se em si mesmo.

 II

Paideia e educação se con-fundem enquanto vias para ser conhecedor de si próprio. Não é risco dizer que a essência de toda paideia e educação estava presente na genial frase inscrita nas portas do oráculo de Delfos:

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses”.

É sendo formado e conduzindo a si para si que, estando posto no mundo, mas já sabendo quem se é, que o conhecimento daquilo que nos rodeia, portanto, da física, da metafísica, da moral, da política, da natureza e suas coisas, enfim, do próprio mundo, nos será possível.

Pensando de outra forma. é conduzindo a si para fora, mas sem nunca deixar de estar dentro, isto é para o mundo, portanto, colocando-se no e para o mundo, que se é possível conhecer, mas, sendo necessário conhecer-se antes de tudo, e a partir disto, já posto no mundo e sendo com o mundo, conhecer o mundo, isto é, o universo e os deuses.

Formação também pode, e diz, dizer sobre a ação de estar em forma. Forma diz os limites ao qual a matéria, mas não só a matéria, o espírito também — mente, que seja –, se completa e repousa. Formação é ir de encontra para a completude da própria forma.

 III

Educar-se e formar-se são independentes de tudo exterior ao que se educa e se forma. Todo conhecimento é auto. Todo outro conhecimento é um conhecimento de alguém a respeito de alguma coisa. Todo conhecimento da flor é o olhar de alguém a respeito da flor. Portanto, próprio. Isto não torna o conhecimento subjetivo, embora ele também não seja nunca objetivo, o torna uni-versal (versões de um uno). Da essência da flor tudo mesmo nunca se saberá. O máximo que se consegue são, quando se une e reúne as informações, várias versões de conhecimento a respeito da flor. Não se depreende totalmente a flor, embora se possa obter muito dela.

Assim, o único conhecimento pleno é o de si. Pois só um homem pode saber o que ele é. Portanto, toda educação e formação depende somente daquele que se educa e se forma. Outros fatores externos são dispensáveis. Não é necessário a leitura de um livro para que possa se chegar a si — embora a leitura deste livro possa levar a tal, mas não é necessária, essencial.

Isto nos leva a um caminho, na verdade um impasse, e a aula?

 IV

Fosse a aula antes, problemas zero. Local onde indivíduos iam discutir, e por meio da discussão aperfeiçoavam-se em conhecimentos a cerca das coisas e de si mesmo. Hoje, a aula, necrotério das discussões, cemitério da dialética, não forma, mas formata. Enquanto formar diz conduzir o homem a sua própria formar, formatar diz dar uma forma qualquer ao homem.

As aulas para a sociedade de hoje são necessárias, mas não com o fim de formar e educar, mas com o fim de formatar um cidadão para a vivência num âmbito social. Formatam-se pessoas em médicos, em engenheiros, em professores, em biólogos. É necessário, para o sustentar dessa tecnocracia capitalista monstruosa, cidadãos formatados ao modelo instituído de sociedade.

Por um lado, viver numa sociedade assim sem dar-se ao luxo de ser formatado é quase um suicídio. Por outro, deixa-se levar por essas aulas é mais perigoso ainda, corre-se o risco de ser jogado num labirinto e nunca mais encontrar um caminho que o leve para si. Paradoxalmente, é necessário que se deixe formatar, mas ao mesmo tempo que se vá de encontro à mesma forma. É preciso, e isso é absurdamente difícil, fazer valia do minimo direito de escolha que se tem, e ser formatado (nunca totalmente) numa forma mais semelhante possível a própria.

Ou então que se mudem as aulas!

Quando diz-se aqui sobre as aulas hoje, não digo de todas — isso seria idiotice. Diz-se sobre a configuração padrão e regente das aulas hoje.

 V

Sendo a aula tão nociva a formação e educação do ser humano, mas ao mesmo tempo necessária enquanto cidadão (polités) de uma sociedade (pólis), é preciso que se forme em uma não-aula.

A não-aula seria os processos de formação paralelos à formação (da aula), isto é, a formatação. A não-aula é todo processo de educação que se dá pelo AFETO, ou, então pelo ESPANTO, e, portanto, é um processo passional. É educar-se pelo gosto, e somente pelo passional chega-se a um conhecimento de si. A não-aula é a ida a uma exposição de artes visuais, e deleitando-se do prazer de contemplar tais artes, adquirir ali conhecimento para completar-se e ser em sua própria forma. A não-aula é a conversa despretensiosa com o amigo sobre um tema qualquer, mas sobre um tema que seja de interesse aos dois, é um diálogo quase platônico feito com a doação simultânea da vontade de dialogar. A não-aula é o deitar-se na cama num dia frio para ler um livro que seja de seu interesse.

A não-aula é o refúgio que leva todo e qualquer ser humano ao caminho em que ele conhecerá a si, o universo e os deuses.

O afeto nunca está relacionado a obrigação. Qualquer afeto é abertura espontânea a possibilidade de maravilhar-se e conhecer. Um conhecimento absolutamente ingênuo e infantil, por isso, puríssimo.

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