Minha esposa

Pobre de mim. A pobreza é minha esposa, e de amantes sou cheio. Aos montes, tenho um amontado delas. Espie. Espie com mais proximidade. Ponha a mão no meu peito, quero que sinta esse pobre coração mega usado. É… Só sente os bateres que ele faz. Isso é bom, sinal que ainda estou vivo.  Outra coisa esperava encontrar? É apenas um órgão, encontramos o que era de se esperar, seu bom funcionamento, sinal que ainda estou vivo. É que andam dizendo por aí, carrapatos sujos, que estou morto. Uma hora eu mesmo acho isso. Ainda não, falta muito, eu acho, sei lá, não tenho muitas certezas. Se quer saber da minha pobreza, espie mais perto. Minha alma, meu espírito, seja lá como chama. Mas vá preparado, ou preparada – perdão, me desculpe, por favor, não sei qual a sua natureza -, pois encontrará, irá poder, coisas não tão belas quanto filmes na televisão, ou aquelas histórias fantásticas. Alias, se quer ver uma coisa bonita, vá ler um livro. Isto daqui é tão feio quanto o mundo, e tão pobre quanto minha esposa, a pobreza. A verdade é que de minhas amantes prefiro iniciar o assunto, antes de minha esposa, a pobreza. Porque é melhor ir explorando as beiras, para depois, finalmente, com a glória, deparar-se com o núcleo, o principal centro de todas as coisas.

Sou como um velho milionário, muito feio, muito milionário, e por consequência sou como um imã. Horripilante, desforme – inócuo talvez. Tenho muitas amantes, aos montes, tantas delas conforme se pode ter. São todas viúvas, carrapatos sempre de véu; ora são virgens em vestidos de noivas, famintas por um falo que nunca poderão consumir, já morreram, e ainda assim continuam vivas. Elas são como um espelho, muitos espelhos, um quarto cheio de espelhos. Sim, assim são elas. Não consigo, sou incapaz de diferenciá-las, apesar de chamá-las por seus próprios nomes. Elas refletem tudo que sou, que fui, que serei, e muito do que não sei. São como espelhos, exatamente como espelhos, da mesma natureza reflexiva, mas umas são gordas, outras magras, umas altas, outras baixas, umas bonitas, outras horripilantes, umas são, outras não são. Podem pensar que há uma relação pederástica, mas as tenho desde que sou criança, desde que elas eram crianças – e umas ainda são crianças -, e as terei assim para sempre. Dormem, fodem, vivem, comem, morrem, renascem e nascem comigo. Eu ainda não sei o que sinto por elas, são como espelhos. Em espelhos nós nunca sabemos o que vemos; talvez nos vemos, talvez vemos o que queremos ver, talvez sejamos cegos. Sei lá, não tenho muitas certezas. Um milionário velho muito feio e muito milionário,  sabe? Assim, exatamente assim sou eu. Quer dizer, sem milionário e sem velho. Mas tenho amantes, amados espelhos que dormem, fodem, vivem, comem, morrem, renascem e nascem comigo. Mas são viúvas e são virgens noivas, mortas e vivas. Ainda não sei o que sinto por elas.

Minha alma balança no respirar próximo de alguém que não sou eu. Qualquer um pode ser. Qualquer ser pode ser. Ser ser. A noite é minha amiga, e falarei dela antes de falar de minha esposa. De minha esposa, a pobreza, falo depois. A noite é minha amiga, e quando ela tem lua nós brigamos. Só é minha amiga quando está eclipsada, noturna, escura, negritude em plena terra. Eu odeio as estrelas, são cinzas todas, borrachas gastas, um pé no saco. Nenhumas das minhas amantes gostam das estrelas. A lua é uma estrela? Parece, sei lá, não tenho muitas certezas. A certeza que tenho é que eu gosto da noite, é calma, é tranquila, é doce, é serena e tem sereno – quando chove. Pois bem, gosto da noite porque ela não é o dia, porque durmo, porque minha solidão pode ser justificada, afinal, é noite e isso é motivo o suficiente para eu estar sozinho no meio de bilhões. Por isso, sem saber o que é amizade, fiz um contrato de amizade com a noite. Somos amigos, brigamos quando tem lua, mas somos amigos. Desde quando sou amigo da noite? Não tenho certeza, não sou um homem de muitas certezas. Desde que somos crianças, eu acho, talvez, pode ser. A noite canta para mim, não faz um som, mas canta, canta sonhos, ilude em cantos, e eu gosto. É… Eu gosto. Por isso somos amigos, mesmo sem eu saber o que é amizade. A melancolia, uma de minhas amantes aos montes, adora a noite.

Minha esposa, a pobreza, era uma amante.  Mas depois eu casei com ela, quando ela passou a ser constante, a estar sempre presente, a ser a mais dentre todas. Ouvi dizer que escolhíamos as esposas pelas coisas boas que elas nos trazem. Amigo meu casou porque tinha felicidade; outro, dinheiro; outro ainda, comida. E casam nos bosques, na praia, nos templos, nos prédios. Com festas, com presentes, com convidados, com amigos. Meu caso foi diferente, muito distinto. Ocorreu de outra maneira, impensável. Conheci a minha esposa, a pobreza, quando eu nasci. Não… Antes. Quando eu comecei a ser. Conheci ela há muito tempo, e ela sempre esteve e está comigo. Em mim, tudo é pobre. A alegria, a vida, o sol, o ar, a comida, tudo. No começo, antes de agora, eu achava isso ruim. Sorrir pobre fazia a melancolia, uma de minhas amantes aos montes, gostar. Na casa, pobreza estava. No trabalho, pobreza estava. Na vida, pobreza estava. No canto, pobreza estava. Na alma, pobreza estava – aqui ela fez sua casa, nossa casa. No começo, antes de agora, criei ódio. Pobreza vivia por me cercar, era obsessiva, angustiada, melancólica, amarga… Pobreza era todas as minhas amantes, e ainda era pobreza. Depois, como agora, me apaixonei, me acostumei. Não sei muito a diferença entre achar e ter certeza, não tenho muitas certezas. Também não sei a diferença entre se apaixonar e se acostumar. Pobreza se tornou parte de mim. Casamos, e chamamos nossos amigos únicos: as amantes minhas e a noite. A noite, não querendo sozinha estar, trouxe a lua – coisa que não gostei, gosto do cego, do escuro, do breu na plenitude do negro. Casamos com a música da noite, aquela sem som. Minhas amantes assistiram, todas descontentes, mas não tristes. Não teve festa, não teve bolo, não teve praia ou bosque. Não teve templo, não tem homens. Casamos e fomos pobres, na alma, da alma, na vida, da vida. Casamos, pobre de mim, e vivo com amantes aos montes, tantas quantas se pode ter.

Espie com mais proximidade. Só próximo, ao olhar pra alma minha, vai ver com absoluta certeza, eu acho, que não há nada em casa esta. Não tenho certeza, não sou um homem de muitas certezas. Pobre de mim, eu acho.

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